Designação da cafeína
Sabemos que a cafeína é um composto que como o nome supõe, provém do café. Este composto é um estimulante natural que atua no sistema nervoso central. A cafeína é altamente solúvel em água quente. É isto que permite a sua extração durante o processo de brewing.
A cafeína (1,3,7-trimethylxanthine) é um alcaloide do grupo das metilxantinas, um composto orgânico. Este é sintetizado naturalmente por diversas espécies vegetais como um mecanismo de defesa fitoquímico (ação pesticida e inibidora de germinação de sementes competidoras).
Embora a sua designação deriva do género Coffea, esta substância está presente de forma natural em diversas matrizes, nas sementes do café (Coffea sp.), nas folhas de chá verde (Camellia sinensis), no cacau (Theobroma cacao), no guaraná (Paullinia cupana) e na erva-mate (Ilex paraguariensis). A cafeína pode também ser encontrada de forma artificial, é adicionada a uma variedade de alimentos, tais como bolos, gelados, doces e refrigerantes de cola e bebidas energéticas.
Quando consumida, a cafeína possui uma ação farmacológica, provoca alterações no sistema nervoso central e no sistema cardiovascular. A sua rápida absorção e solubilidade permitem que atravesse a barreira hematoencefálica, alterando o estado de alerta e a performance metabólica. Sendo uma substância psicoativa, a mais consumida a nível mundial.

Cafeína numa chávena
O teor de cafeína é determinado primariamente pela genética da planta. Enquanto o C. arabica evoluiu em altitudes elevadas com menos pressão de pragas, o C. canephora (Robusta) desenvolveu quase o dobro da concentração de cafeína como estratégia de sobrevivência e defesa fitoquímica.
| Espécie | Teor de Cafeína (médio) |
| Arábica (C. arabica) | 1.2% – 1.5% |
| Canéfora (C. canephora) | 2.2% – 2.7% |
| Libérica (C. liberica) | 1.2% – 1.4% |
É um erro comum assumir que a cafeína na chávena é estática. Sendo um composto altamente solúvel, a sua concentração final de 80 mg (numa dose padrão de 120 mL de café de filtro ou 30 mL de expresso) depende de variáveis termodinâmicas e mecânicas:
Rácio de Extração: A quantidade de café moído utilizada por grama de água. Quanto maior for a quantidade de água para a mesma quantidade de café, mais diluído será o café, e consequentemente, menor a concentração de cafeína.
Granulometria: Moagens mais finas aumentam a área de superfície de contacto, facilitando a difusão da cafeína para o solvente.
Temperatura da Água: A solubilidade da cafeína aumenta exponencialmente com a temperatura. Extrações abaixo dos 90°C podem resultar numa transferência menos eficiente.
Tempo de Contacto: Métodos de imersão prolongada (ex: Prensa Francesa ou Cold Brew) podem extrair mais cafeína total, mesmo que a concentração por mL pareça menor devido à diluição.

Metabolismo da cafeína
A cafeína age sobre os receptores do sistema nervoso central. A molécula é rapidamente absorvida pelo trato gastrointestinal e metabolizada no fígado, sendo transformada por oxidação em paraxantina e teofilina. Estes três compostos agem sobre outras substâncias presentes no organismo, como a adenosina, adrenalina, dopamina e fosfodiesterase.
Os neurónios armazenam neurotransmissores ou mediadores químicos, cujos servem para serem mensageiros de sinais nervosos, também chamados de impulsos nervosos. Estes conectam-se ao seu destino final, aos recetores nervosos. Após a sua ligação, o neurotransmissor é degradado.
A adenosina é o “sinal de cansaço” do organismo. Subproduto resultante do gasto energético (ATP), quanto mais energia é gasta, maior é a quantidade de adenosina produzida. Ao longo do dia, à medida que gastamos energia, a adenosina acumula-se e liga-se a recetores específicos no sistema nervoso, enviando uma mensagem para o corpo abrandar e descansar. É este processo que provoca o sentimento de sono ao final do dia.
A molécula de cafeína é estruturalmente muito semelhante à da adenosina. Devido a esta semelhança, ela consegue ocupar os mesmos recetores no cérebro, mas com um efeito oposto
Neste caso, quando colocamos a cafeína na equação, esta molécula conecta-se a específicos neurorecetores, impedindo os neurotransmissores (adenosina) de se conectarem. Consequentemente ocorre uma alteração do funcionamento do sistema nervoso.
Os efeitos estimulantes podem começar 15 a 30 minutos após a ingestão e durar várias horas. Nos adultos, a meia-vida da cafeína (tempo que o organismo demora a eliminar 50 % da cafeína) varia consideravelmente, dependendo de fatores como a idade, o peso corporal, a gravidez, a toma de medicamentos e a saúde do fígado. Em adultos saudáveis, a meia-vida média é de aproximadamente quatro horas, indo de duas a oito horas.
Consumo de cafeína
Tabela abaixo mostra o consumo médio de cafeina, segundo a EFSA.
| Grupo Etário | Dose de Cafeína |
| Muito Idosos (75 anos ou mais) | 22 – 417 mg |
| Idosos (65-75 anos) | 23 – 362 mg |
| Adultos (18-65 anos) | 37 – 319 mg |
| Adolescentes (10-18 anos) | 0.4 – 1.4 mg/kg de peso corporal |
| Crianças (3-10 anos) | 0.2 – 2.0 mg/kg de peso corporal |
| Crianças Pequenas (12-36 meses) | 0 – 2.1 mg/kg de peso corporal |
Benefícios e Riscos
O consumo de cafeína oferece benefícios claros na capacidade de alerta e na redução da fadiga, resultando numa melhoria objetiva em atividades que exigem vigilância e foco cognitivo. No entanto, o seu impacto é dose-dependente e varia segundo a sensibilidade individual.
Embora o efeito no sistema cardiovascular ainda gere debate científico, o consumo excessivo, a curto prazo, pode prejudicar o controlo motor e a qualidade do sono, além de exacerbar a irritabilidade em indivíduos com quadros de ansiedade. O consumo regular pode elevar a pressão arterial de forma persistente, por isso, indivíduos com hipertensão, doenças coronárias ou arritmias devem moderar a sua ingestão.
A Dose é o Veneno
Estudos sobre a saúde humana sugerem que um consumo moderado e seguro se situa até aos 4,6 mg por cada kg de peso corporal (ou cerca de 400 mg diários, aproximadamente 4 a 5 cafés expresso, para um adulto médio,). Acima destes valores, os riscos superam os benefícios funcionais da substância.
A cafeína durante a torra
Normalmente as pessoas possuem a tendência em crer que uma torra mais escura proporciona um café com mais cafeína. Mas é mito, a cafeína é estável ao calor da torra. O que muda é o sabor e a densidade do grão, mas o teor de cafeína permanece praticamente inalterado.
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