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Processamento do café

Como consumidores, quase sempre vemos o café como uma bebida pronta a servir. Outros, com um interesse mais profundo, preparam-no em casa e habituaram-se a vê-lo em grão ou moído.

No entanto, no contexto português, raramente se observa o café na sua forma original ou no estado verde. Muitos consumidores regulares desconhecem que o café deriva de uma cereja e que a bebida final resulta da torra da semente desse fruto.

Antes de qualquer intervenção técnica no processamento, a qualidade final da chávena é influenciada desde o momento do plantio. Este é o ponto de partida da cadeia de valor.

Colheita seletiva:

Este método é o padrão de excelência para o mercado de cafés de especialidade. Baseia-se na análise visual e tátil da maturação do fruto. O colhedor seleciona apenas as cerejas que atingiram o pico de maturação. Garante uma homogeneidade próxima dos 100% de frutos maduros. Exige múltiplas passagens (entre 3 a 5 vezes) pela mesma árvore, o que eleva drasticamente o custo operacional.

Durante a colheita, é aplicada uma leve pressão rotativa, um torque, no pedúnculo. Se o fruto estiver no pico da maturação, ele desprende-se fácilmente sem danificar o nó do ramo. Se oferecer resistência, embora pareça maduro visualmente, o fruto ainda não atingiu o ponto ideal.

Derriça:

Metodologia de varredura manual ou semimecanizada, onde todos os frutos de um ramo são removidos simultaneamente. Ocorre quando a maioria dos frutos de um ramo está madura. Contudo, devido à floração irregular, o lote resultante acaba por ser uma mistura heterogénea. Este método obriga a um maior rigor na etapa de separação, para minimizar defeitos na chávena.

Colheita mecanizada:

As máquinas utilizam hastes oscilantes que provocam vibração aos ramos. A frequência da vibração é ajustada para que a força de desprendimento atue preferencialmente nos frutos maduros. Uma única máquina pode realizar o trabalho equivalente a centenas de colhedores manuais, sendo benéfico economicamente. Requer podas específicas e espaçamento entre linhas que permitam a passagem da maquinaria.

A decisão do momento exato da colheita é frequentemente apoiada pelo uso de refratómetros. Estes medem o índice Brix (teor de sólidos solúveis) da mucilagem. Um café colhido com baixo Brix resultará num grão com pouca densidade e precursores de sabor insuficientes, enquanto um índice ideal (frequentemente acima de 20%) assegura que o grão terá a estrutura necessária para desenvolver notas complexas e caramelizadas durante a torra.

Separação de impurezas (Limpeza a Seco)

Antes de entrar nos tanques de água, o café pode passar por um processo de limpeza a seco para remover detritos grosseiros. Através de peneiras vibratórias remove-se pedras, terra e paus grandes. Um fluxo de ar potente remove poeiras, folhas secas e cascas leves. Esta etapa evita que a água dos tanques de separação fique excessivamente suja ou obstruída.

Separação e classificação:

A precisão nesta etapa é o que define a homogeneidade térmica. Grãos de tamanhos e densidades diferentes reagem de forma distinta ao calor no tambor de torra. Se a separação falhar, os grãos menores podem queimar enquanto os maiores permanecem subdesenvolvidos.

A separação garante que os frutos verdes (baixos em açúcar e precursores de aroma) não sejam processados com os maduros, evitando notas de adstringência metálica no produto final. A remoção de frutos boia ou danificados reduz drasticamente o risco de contaminações por microtoxinas ou sabores fétidos derivados de fermentações descontroladas.

Separação por densidade (Via húmida)

É o método mais eficaz e comum em estações de processamento. Utiliza a água como meio de flutuação para distinguir a qualidade dos frutos.

Os frutos que flutuam são cerejas que secaram na árvore, frutos malformados, brocados (atacados por insetos) ou ramos e folhas. Frutos maduros são os frutos densos que afundam. Estes representam o potencial de alta qualidade.

O café é lançado em canais de lavagem ou tanques sifão. O fluxo de água conduz os flutuantes por uma saída superficial, enquanto os frutos pesados seguem pelo fundo para a etapa seguinte.

Separação mecânica (Crivagem)

Utilizada frequentemente antes ou depois da separação hidráulica para calibrar o tamanho dos frutos.

O café passa por cilindros perfurados com diferentes diâmetros. Os frutos pequenos (muitas vezes imaturos ou geneticamente menores) caem pelos primeiros furos, enquanto os maiores seguem até ao final.

Esta uniformidade de tamanho é vital para o processamento posterior, especialmente na despolpa mecânica, onde as lâminas das máquinas precisam de estar ajustadas a um calibre específico para não esmagar o grão.

Processamento dos grãos:

Natural:

É o método onde o grão seca dentro do fruto intacto. É a técnica que mais preserva os açúcares naturais da cereja. O fruto colhido passa pelo processo de seleção e passa para os terreiros ou camas suspensas. Durante as 2 a 4 semanas de secagem, ocorre uma migração de açúcares e compostos solúveis da mucilagem para o interior do grão.

O café resultante desta metodologia possui um corpo denso e licoroso, com uma doçura acentuada (notas de caramelo e chocolate) e acidez baixa a moderada. Apresenta frequentemente notas de fruta madura ou passas.

O processamento natural fermentado é uma evolução técnica do método tradicional. Enquanto no natural comum a fermentação ocorre de forma espontânea e aeróbica nos terreiros, aqui o processo é induzido em ambientes confinados para manipular o perfil sensorial do grão.

As cerejas inteiras (com casca e polpa), após serem selecionadas e limpas, são colocadas em tanques de aço inoxidável ou bidões de plástico de qualidade alimentar.

Os tanques são selados hermeticamente com válvulas de sentido único. Estas válvulas permitem que o dióxido de carbono produzido pela fermentação saia, impedindo a entrada de oxigénio. Ao contrário do terreiro, aqui o produtor monitoriza o pH, a temperatura e a pressão. Após 24 a 120 horas no tanque, os frutos são retirados e levados para os terreiros ou camas suspensas para secar como um “natural” clássico.

O resultado é um café com notas exóticas e intensas que raramente se encontram em cafés convencionais. É comum detetar notas de frutas tropicais (manga, maracujá), pastilha elástica, canela, especiarias e até iogurte (devido à fermentação lática). A acidez torna-se mais complexa, muitas vezes descrita como uma acidez láctica, cremosa ou tartárica (semelhante ao vinho). O corpo é extremamente elevado e sedoso, resultado da quebra de compostos complexos durante a fermentação.

Lavado:

Foca-se na pureza do grão, removendo todas as camadas externas antes da secagem. É o método predileto para realçar a acidez e o terroir. Os frutos passam por um despolpador que remove a casca e a polpa. O grão fica apenas com a mucilagem. Posteriormente entram em tanques de água por 12 a 36 horas. Micro-organismos naturais quebram a mucilagem. Depois, são lavados com água limpa. O grão seca apenas com o pergaminho.

Despolpadores de cilindro (Drum pulpers): É o mais comum. A cereja é pressionada com um cilindro rotativo contra uma superfície rugosa ou perfurada. A pressão espreme o grão para fora da casca, enquanto a casca é direccionada para uma saída separada.

Despolpadores de disco (Disc pulpers): Utilizam discos rotativos com ranhuras. São altamente eficientes e permitem ajustar a distância entre os discos, o que minimiza o dano físico aos grãos de diferentes tamanhos.

Desmucilagem Mecânica (Aquapulpers): Em centrais de processamento modernas, utiliza-se a fricção mecânica para remover não só a casca, mas também parte da mucilagem de forma imediata. Este equipamento utiliza forças centrífugas e jatos de água controlados, reduzindo ou eliminando a necessidade de fermentação em tanques.

O resultado é uma chávena “limpa”, acidez brilhante e cítrica, corpo leve e notas florais ou de chá.

Processamento Honey

O Honey é um método híbrido que combina o melhor dos dois mundos sendo muito popular na América Central. Neste processo, a casca e a polpa são removidas, mas a mucilagem (a camada gelatinosa e rica em açúcares) é deixada no grão durante a secagem, sem que este passe pelos tanques de lavagem ou fermentação prolongada.

Dependendo da percentagem de mucilagem que permanece no grão e da sua exposição solar, este método classifica-se normalmente em dois grupos:

White/Yellow Honey: Caracteriza-se por ter pouca mucilagem e uma secagem mais rápida.

Red/Black Honey: Apresenta uma camada generosa de mucilagem, com uma secagem lenta e, frequentemente, realizada à sombra.

O resultado é um equilíbrio perfeito entre a doçura do método natural e a limpeza (brilho) do método lavado. É comum encontrarmos notas pronunciadas de mel, melaço e frutas de caroço, como o pêssego ou o alperce.

Bibliografia

Baessa, A. (2023). Processamento e exportação: O caso do Fogo Coffee Spirit em Cabo Verde. Fogo Coffee Spirit.

Hoffmann, J. (2018). The world atlas of coffee: From beans to brewing – coffees discovered, explained and enjoyed (2.ª ed.). Mitchell Beazley.

Illy, A., & Viani, R. (Eds.) (2005).Espresso coffee: The science of quality. 

Rhinehart, R. (2021). Coffee processing methods: A guide to how coffee is made. Specialty Coffee Association.

Wintgens, J. N. (Ed.). (2012). Coffee: Growing, processing, sustainable production: A guidebook for growers, processors, traders and researchers. Wiley-VCH.

Leandro Guilherme, A Flor da Selva, Maio de 2026

 

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